mardi 23 octobre 2007
Café Littéraire : Jerusalém de Gonçalo M. Tavares
Nous vous invitons à découvrir et à commenter le roman de Gonçalo M. Tavares, Jerusalém. Voici un extrait du premier chapitre.
Capítulo I
Ernest e Mylia
1
Ernst
Splengler estava sozinho no seu sótão, já com a janela aberta, preparado para
se atirar quando, subitamente, o telefone tocou. Uma vez, duas, três, quatro,
cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze, Ernst atendeu.
Mylia morava
no primeiro andar do número 77 da Rua Moltke. Sentada numa cadeira descnfortável pensava nas palavras
fundamentais da sua vida. Dor, pensou, dor era uma palavra essencial.
Havia sido operada uma vez, depois
outra, quatro vezes operada. E agora aquilo. Aquele ruído no centro do corpo, no
miolo. Estar doente era
uma forma de exercitar a resistência à dor ou a apetência para se aproximar de
um deus qualquer. Mylia murmurou: a igreja está fechada de noite.
Quatro da manhã do dia 29 de Maio, e
Mylia não consegue dormir. A dor constante vinda do estômago, ou talvez mais de
baixo, de onde vem exactamente a dor larga, que não pertence a um ponto ?
Talvez da parte de baixo do estômago, do ventro. O certo é que eram quatro da
manhã e ainda não descansara um minuto. Fechar os olhos quando se tem medo de
morrer ?
Levantou-se.Mylia era uma mulher magra,
mas forte. Não utilizava os dedos para ninharias. (Muitas vezes repetia a
frase: não utilizar os dedos para ninharias.) Concentrava-se ; sabia que
tinha pouco anos de vida ; a doença veio: ficamos juntas uns anos, depois
ela permanece e eu parto. Pois bem, havia que concentrar a energia que existe
num corpo e se dirige aos dias, concentrá-la – à energia – como a uma rolo de
carne, estar pronta para agir. Dispensando ninharias. Os dedos devem tocar só
no que é espesso, no que é fundamental ; o urgente tem de coincidir com o
essencial, com o que altera de alto a baixo. Como uma pancada forte no momento
em que a recebemos: todas as coisas do dia mais insignificante se devem aproximar
desse momento em que se recebe uma pancada forte. Mylia olhava-se ao espelho :
estou viva e já dei um passo mau. Estar doente é ter dado um passo mau, um
passo diabólico, murmurou Mylia. Uma doença que altera de alto a baixo.
Mas nesse dia, às quatro da manhã,
decidira sair de casa. De noite a dor
desce sobre o corpo de modo distinto. Como um concentrado químico, uma
substância que mal conseguem perceber. Entre o dia e a noite a superfície não é
plana. Um ligeiro declive.
Concentrada a dor nesse sítio largo que
não era um ponto – entre o baixo estômago e o ventre – Mylia estava na rua à
procura de uma igreja.
Surpreendido, um vagabundo diz que não
sabe. Uma igreja ?, pergunta.
É de noite, diz o homem, podem
roubá-la. Não deve procurar uma igreja, mas sim a polícia para a proteger. Onde
quer ir a estas horas ? Eu podia roubá-la, senhora.
Mylia sorriu, afastou-se. A dor não a
deixava concentrar-se num diálogo.
Não
quero a polícia, quero uma igreja. Sabe se estão fechadas a esta
Gonçalo M. Tavares, Jerusalém, Lisboa : Caminho, 2004





